Arquivos da categoria: Economia Mundial

Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 36

Por Paulo Mansur Levy

A economia mundial segue evoluindo de forma positiva, seja em termos de crescimento, seja em termos das condições financeiras. O segundo trimestre caracterizou-se pela manutenção e/ou aceleração da atividade econômica nos países desenvolvidos, com destaque para a economia japonesa, que surpreendeu ao crescer 1% neste trimestre. As políticas monetárias nos EUA, Área do Euro (AE) e Japão ainda são relativamente acomodativas e, embora a taxa de desemprego nos EUA tenha caído significativamente, a inflação anual tem declinado sistematicamente, inclusive seu núcleo. Diante da perspectiva de uma normalização bastante gradual da política monetária nos países industrializados, o apetite pelo risco dos investidores estrangeiros mantém-se ativo. O índice VIX, que mede a volatilidade do preço dos ativos, está em níveis muito baixos. Por outro lado, a China tem conseguido manter o crescimento em ritmo estável, ainda que haja preocupação com os efeitos negativos derivados da necessidade de reduzir o endividamento das empresas, considerado excessivo.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 35

Por Paulo Mansur Levy

Esta segunda seção da Carta de Conjuntura Nº 35 avalia que o cenário externo foi relativamente favorável à economia brasileira no último trimestre. Embora ainda com alguma instabilidade, os sinais da atividade econômica apontam para um crescimento sincronizado entre os principais países/regiões do mundo: EUA, União Europeia, China e, até mesmo, Japão. Esse movimento apoia-se em políticas monetárias ainda acomodativas e em políticas fiscais moderadamente expansionistas. A inflação acelerou nos EUA e na Área do Euro (AE), sobretudo pelo efeito do aumento do preço de commodities, em especial do petróleo. Contudo, há sinais de acomodação desses preços nos últimos meses. Ainda assim, as medidas de inflação subjacentes, embora se aproximando das metas dos respectivos bancos centrais, tendem a desacelerar nos próximos meses. Nessa perspectiva, espera-se que a normalização da política monetária avance gradualmente nos EUA, enquanto na AE e no Japão ela seguiria expansionista, ainda que com sinalizações de mudança no caso europeu.

Eventuais instabilidades no período estiveram relacionadas a incertezas de natureza política. Nos Estados Unidos, a nova administração promoveu mudanças na política externa e enfrentou dificuldades internas no Congresso e frente à imprensa e à opinião pública. Como parte do otimismo que prevaleceu após as últimas eleições deveu-se à expectativa de implementação de medidas de desregulamentação econômica (do sistema financeiro e da saúde, por exemplo), de uma reforma tributária e de aumento dos gastos públicos em infraestrutura, estes percalços tendem a reverter parcialmente as expectativas positivas iniciais. Por outro lado, a retórica agressiva em relação ao comércio exterior e à necessidade de medidas protecionistas por enquanto não se materializou em medidas concretas além do abandono da Iniciativa do Pacífico (TPP na sigla em inglês) e de uma proposta de rediscussão dos termos do NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio). Na Europa, as eleições na Holanda e na França, onde candidatos de centro foram vitoriosos, reduziram o risco de que partidos radicais anti União Europeia viessem a assumir o poder, minando assim ainda mais a força econômica e política do bloco.

Vale notar que, ao longo de 2016, a economia mundial passou por choques relativamente intensos – forte instabilidade financeira na China no primeiro trimestre, votação sobre a saída do Reino Unido da União Europeia em junho e eleição de Donald Trump nos EUA em novembro – sem que se tenha observado, como em momentos anteriores da trajetória pós-crise, uma perda muito forte de dinamismo. Isso significa maior resiliência e, portanto, perspectiva mais sólida de continuidade do crescimento à medida que o aumento do apetite pelo risco – expresso, por exemplo, no aumento dos fluxos de capital para países emergentes – estimule os investimentos.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 34

Por Paulo Mansur Levy

A economia mundial encontra-se em um momento paradoxal: por um lado, os sinais de crescimento da atividade econômica e de aceleração da inflação tornaram-se mais fortes; por outro, a chegada de Donald Trump à presidência nos Estados Unidos da América (EUA), associada ao Brexit e à realização de eleições em países-chave da Área do Euro (AE) ao longo de 2017, colocou novos elementos de incerteza no cenário mundial. No caso de Trump, o risco se refere às políticas econômicas e à postura da nova administração em relação ao comércio internacional e à imigração; no caso dos países europeus, o risco relaciona-se à própria sobrevivência do euro como moeda em caso de vitória de partidos que defendem a saída de seus países da AE.

Em relação às perspectivas de crescimento da economia mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou em janeiro a atualização de suas projeções, mantendo-as nos mesmos níveis das de outubro do ano passado. Isso não acontecia desde 2014. Nesse período, as atualizações em relação às projeções anteriores sempre foram para baixo. Como se pode ver pelo Gráfico 1, a aceleração do crescimento da economia mundial – de 3,1% em 2016 para 3,4% em 2017 e 3,6% em 2018 – refletiria principalmente a recuperação do crescimento em economias emergentes – de 4,1% em 2016 para 4,5% em 2017 e 4,8% em 2018 -, enquanto o movimento de alta nos países avançados seria mais modesto, de 1,6% em 2016 para 1,9% em 2017 e 2,0% em 2018.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 33

Por Paulo Mansur Levy

A economia mundial nos últimos meses combinou alguma melhoria dos indicadores de desempenho com o aumento do grau de incertezas, associado ao comportamento dos mercados financeiros e às expectativas no campo das políticas econômicas nacionais e a questões geopolíticas. O desempenho, medido pelo PIB do terceiro trimestre, revelou aceleração do crescimento nos Estados Unidos e no Japão e estabilidade na Europa. Na China, o crescimento manteve-se estável em 6,5%. Mais recentemente, os indicadores de gerentes de compras (Purchasing Managers’ Indexes – PMI) em outubro e novembro corroboraram essa tendência, tanto na indústria quanto nos serviços. Os mercados de trabalho vêm se recuperando – mais rapidamente nos EUA, mais lentamente na Europa – e a inflação tem acelerado, ainda que lentamente, uma vez absorvidos os efeitos da forte queda do preço de commodities, especialmente energia, ocorrida ao longo de 2015 e início de 2016.

Nessa perspectiva, as políticas monetárias mantiveram-se expansionistas na Área do Euro e no Japão e passaram a uma postura um pouco menos acomodativa nos EUA, onde a taxa básica de juros aumentou em dezembro. Talvez um elemento novo no quadro da política econômica seja a postura um pouco menos rígida da política fiscal nesses países ou regiões. Parece ter se formado um consenso de que a política monetária teria atingido seu limite, em termos do uso de instrumentos quantitativos, e que caberia à política fiscal agora aumentar sua contribuição para sustentar uma recuperação ainda percebida como frágil.

Não obstante a evolução relativamente favorável da economia mundial, choques de natureza política têm impactado de forma negativa os mercados financeiros e os fluxos internacionais de capital. Especificamente, a eleição de Donald Trump nos EUA trouxe incertezas do ponto de vista da política econômica interna, assim como pelas implicações geopolíticas das posições assumidas pelo candidato durante as eleições. As taxas de juros de longo prazo aumentaram significativamente após as eleições, refletindo a expectativa de um aumento do déficit fiscal num contexto em que a economia americana já se encontra próxima do pleno emprego. Na Europa, a derrota do governo no referendo na Itália parece ter reforçado a posição dos “eurocéticos”, após o Brexit do final de junho. A consequência tem sido a valorização do dólar no mercado internacional, especialmente contra o Euro.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 32

Por Paulo Mansur Levy

O terceiro trimestre do ano caracterizou-se pela reversão das expectativas mais negativas que prevaleciam ao final de junho, sem que se tenha conseguido, porém, superar as incertezas de caráter mais estrutural. O período começou sob o impacto da decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (processo que ficou conhecido como Brexit). Os efeitos negativos dessa decisão, no entanto, acabaram revelando-se menores do que o esperado, pelo menos até o momento: a libra desvalorizou-se 13% logo após o anúncio do resultado do plebiscito, estabilizando-se posteriormente nesse novo patamar, enquanto os dados de atividade também apresentaram recuperação após queda em junho e julho. Na Área do Euro (AE), onde se esperava que o impacto negativo do Brexit seria sentido mais intensamente, a tendência de crescimento moderado não parece ter se alterado, embora o crescimento do segundo trimestre tenha desacelerado em relação ao primeiro. O crescimento moderado do período na AE foi influenciado positivamente pelas exportações, algo que deve ser difícil de sustentar diante do modesto crescimento em volume no comércio internacional.

Nos EUA, a reunião de junho do Comitê de Política Monetária (FOMC na sigla em inglês) do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) trouxe um tom mais cauteloso quanto à perspectiva de aumento da taxa de juros. Na ata daquela reunião, o FOMC reconheceu os sinais ambíguos quanto ao nível de atividade (os dados de emprego de maio foram particularmente ruins) enquanto o cenário internacional incerto, inclusive pelo temor quanto aos efeitos do Brexit, também foi usado como justificativa para um eventual adiamento da desejada normalização da política monetária. Desde aquele momento, contudo, houve significativa melhora no mercado de trabalho e o Brexit, como mencionado, não teve o impacto negativo de curto prazo que se temia. Os indicadores de atividade nos EUA (produção industrial, setor habitacional, vendas do varejo, confiança), no entanto, têm se mostrado voláteis e a inflação (medida pelo núcleo do deflator das despesas de consumo das famílias, PCE na sigla em inglês) tem se mantido abaixo do objetivo de longo prazo do Fed, de 2% ao ano, ainda que em ligeiro crescimento. Nas discussões internas do FOMC e nas declarações de seus membros, voltaram a ganhar força os defensores de um aumento dos juros, e a reunião de setembro apontou claramente que uma nova elevação da taxa de juros Federal Funds deve acontecer ainda em 2016. Não obstante, a expectativa é de que essa elevação seja bem gradual.

A esse quadro mais geral de falta de dinamismo da atividade econômica somou-se o Japão, onde a inflação próxima de zero e novos sinais de perda de fôlego do crescimento vêm colocando em xeque a efetividade da política monetária, de modo que em julho foi anunciado um novo pacote fiscal. Em sua reunião de setembro, o Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) anunciou uma nova forma de operar a política monetária, fixando uma meta de juro zero para os títulos de 10 anos do governo japonês, além da manutenção dos demais instrumentos, como a compra de ativos e o compromisso com a obtenção de uma inflação superior a 2% ao ano. Trata-se de uma tentativa inédita por parte da autoridade monetária de fixar a estrutura a termo da taxa de juros, algo que equivale a um afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) sem limites. Os títulos do governo japonês de 10 anos vinham sendo negociados a taxas negativas em termos nominais.

Nos mercados emergentes, as perspectivas para a China parecem ter se estabilizado no que se refere ao crescimento de curto prazo. Isso não significa, contudo, que tenham desaparecido as desconfianças quanto a sua sustentabilidade no médio prazo. A China encontra-se em meio a uma transição na qual o peso do passado, sob a forma de um endividamento elevado, acumulado principalmente depois de 2008, impede que os novos setores e fontes de dinamismo avancem mais rapidamente. Apesar disso, as políticas fiscal e monetária têm estimulado a atividade econômica, mantido os investimentos em infraestrutura e sustentado o crescimento em patamar ainda elevado, ainda que obviamente inferior às taxas estratosféricas de alguns anos atrás. A confiança dos empresários da indústria em setembro aumentou novamente, voltando em alguns casos ao terreno da expansão, acima de 50 pontos, indicando assim certa estabilização do atual ritmo de crescimento.

Na América Latina, o crescimento também parece ter se estabilizado, embora em níveis relativamente baixos quando comparados ao observado no período de boom de preços de commodities. Por outro lado, as notícias positivas quanto aos efeitos menores que esperados do Brexit e a perspectiva de adiamento da elevação dos juros nos EUA, e de um gradualismo comedido quando voltarem a subir, mantiveram o ambiente favorável no que se refere à aceitação de riscos pelos investidores internacionais. Isso permitiu alguma valorização cambial e favoreceu o controle da inflação de modo que as políticas monetárias na região vêm se tornando menos restritivas.

As previsões de crescimento da economia mundial vinham sendo sistematicamente revistas para baixo (Gráficos 1 e 2), refletindo o ritmo relativamente mais lento da atual recuperação em comparação a ciclos anteriores. Atualmente, as projeções do FMI apresentadas no Panorama da Economia Mundial (WEO na sigla em inglês), de outubro, são de um crescimento da economia mundial de 3,1% em 2016 e 3,4% em 2017 – projeções que se mantiveram estáveis em relação ao relatório de julho, mas que encobrem uma nova revisão para baixo do crescimento em 2016 dos países desenvolvidos (-0,6 ponto percentual nos EUA) e movimento em sentido oposto para os países emergentes, especialmente Rússia e Índia (Tabela 1). Vale notar que apenas a China, apesar da forte desaceleração de seu crescimento nos últimos anos, deve contribuir com quase 40% do crescimento global.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 31

Por Paulo Mansur Levy

A economia mundial apresentou um cenário relativamente neutro ao longo dos últimos dois meses. Do ponto de vista do crescimento e da atividade econômica, o quadro é de recuperação moderada nos EUA vis-à-vis o fraco desempenho do primeiro trimestre; de manutenção de uma trajetória de expansão também moderada na Área do Euro; e de incertezas na China. Os países desenvolvidos, talvez à exceção dos EUA, ainda se deparam com pressões deflacionárias relevantes e suas políticas monetárias têm se mantido expansionistas ou neutras, o mesmo acontecendo com as políticas fiscais.

Nos EUA, os dados de crescimento do primeiro trimestre foram revistos de 0,5% na primeira estimativa para 1,1% na variação trimestral dessazonalizada e anualizada. Os dados do segundo trimestre já disponíveis apontam para uma aceleração dessa taxa, para o intervalo entre 2,5% e 3%, mas os dados relativos à atividade econômica têm se mostrado bastante voláteis. A expectativa de aceleração do crescimento norte-americano, ainda que modesta, decorre principalmente do comportamento do consumo das famílias e do setor de construção residencial, enquanto os investimentos não-residenciais registraram forte queda no primeiro trimestre, sem apresentar perspectiva mais sólida de recuperação a curto prazo. Na Área do Euro, a recuperação do crescimento manteve o ritmo moderado do ano passado e, além disso, recebeu novos estímulos a partir da reafirmação pelo Banco Central Europeu da política monetária expansionista. Não obstante, a inflação permanece extremamente baixa, colocando em questão a sustentabilidade do processo, ­— ainda mais diante da perspectiva de saída do Reino Unido da União Europeia, como comentado a seguir. Na China, por seu turno, as perspectivas para a atividade econômica voltaram a ficar nubladas em maio, após uma sinalização positiva em abril. A forte desaceleração dos investimentos voltou a colocar em destaque as dificuldades de uma convergência gradual e controlada do crescimento, especialmente pelo efeito do elevado endividamento acumulado pelas empresas e governos locais nos últimos anos.

Do ponto de vista dos mercados financeiros, a tensão aumentou ao longo de maio e junho com a aproximação da data do plebiscito, que acabou por decidir pela saída do Reino Unido da União Europeia. Na perspectiva dos países emergentes, a aversão ao risco e, por consequência, os fluxos de capital, foram afetados pelo Brexit desde o início de junho, mas, ao longo de abril e maio, ambos foram relativamente favoráveis a esses países. Destaca-se a valorização das moedas nacionais e a continuidade da recuperação dos preços de commodities, seja pelo quadro geral ligeiramente mais positivo em comparação ao início do ano, seja por fatores específicos, em particular o efeito de condições climáticas potencialmente adversas sobre os preços de produtos agrícolas.

A perspectiva da saída do Reino Unido da União Europeia, mesmo que prevista para ocorrer em dois anos e em condições ainda a serem definidas, trouxe novas incertezas aos mercados, que desde o plebiscito têm se mostrado bastante voláteis. Espera-se que o próprio Reino Unido seja o principal país a ser negativamente afetado pela decisão, tanto pelo canal do comércio internacional quanto pelo dos fluxos de capital, vindo em segundo lugar os países da União Europeia. Alguma instabilidade já pode ser observada no mercado financeiro britânico, ensejando a reação do Banco da Inglaterra, no sentido de aliviar medidas de natureza regulatória que estavam sendo implantadas.  Na medida em que os efeitos do Brexit forem combatidos por políticas ainda mais expansionistas nos países desenvolvidos, isso pode eventualmente favorecer os países emergentes. Assim, por exemplo, com a percepção de que o cenário de incertezas levará a uma postura mais cautelosa pelo Federal Reserve, a taxa de juros do título do Tesouro norte-americano de 10 anos caiu de 1,73% ao ano na véspera do plebiscito para 1,4% ao ano no início de julho, indicando que a liquidez internacional tende a se manter elevada.

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Economia Mundial

Carta de Conjuntura Nº 30

Por Paulo Mansur Levy

A economia mundial apresentou elevada instabilidade nos primeiros meses de 2016. O aumento das incertezas em relação ao crescimento chinês; a forte queda dos preços do petróleo entre o início do ano e meados de fevereiro; dados contraditórios em relação ao desempenho da economia norte-americana e uma percepção de perda de fôlego na recuperação da Europa foram alguns dos fatores que contribuíram para o aumento da volatilidade nos mercados financeiros. As bolsas de valores ao redor do mundo sofreram fortes quedas, o preço do ouro subiu e os preços de commodities passaram por nova rodada de correções para baixo.

Como pano de fundo para essa situação, duas visões em relação ao atual momento e ao futuro da economia mundial têm se destacado e influenciado o comportamento dos mercados. A primeira, conhecida como “estagnação secular”, argumenta que a crise de 2007/08 teria produzido uma queda “permanente” nas taxas de crescimento de longo prazo da economia mundial. Há duas hipóteses para essa redução da taxa de crescimento de longo prazo: (i) uma forte desaceleração da taxa de crescimento da produtividade – visão que privilegia problemas pelo lado da evolução da oferta, associada a um ritmo mais lento de progresso técnico e a mudanças demográficas; e, (ii) uma insuficiência crônica de demanda, associada ao aumento permanente da propensão a poupar, após o forte aumento do endividamento de empresas e famílias nos anos anteriores à crise. Esse “excesso” de poupança, para um dado nível de investimento, tornaria negativa a taxa real de juros de equilíbrio, colocando as economias numa espécie de “armadilha da liquidez” diante das pressões deflacionárias com as quais se deparam atualmente.

A segunda visão, relacionada ao ponto anterior, refere-se à forte redução do espaço para que a política econômica nos países desenvolvidos possa ser mobilizada para se contrapor a eventuais choques negativos que interrompessem o processo de recuperação econômica. Com os níveis de dívida pública ainda bastante elevados após as políticas anticíclicas adotadas em resposta à crise de 2007/08, a política fiscal, segundo esta visão, enfrentaria limites estreitos no sentido de gerar déficits maiores que os atuais para estimular a atividade econômica. Do lado da política monetária, taxas de juros próximas de zero – na verdade, já negativas na Europa e no Japão para reservas excedentes dos bancos mantidas nos respectivos bancos centrais – e uma forte ampliação dos balanços através de medidas de expansão monetária também limitariam a capacidade de reação a eventuais choques. Há ainda quem veja na atual instabilidade apenas um movimento de correção dos excessos produzidos pelas próprias políticas monetárias super-expansionistas de anos anteriores, as quais teriam inflado artificialmente os preços de ativos. Nesse caso, as quedas das bolsas ao redor do mundo apenas refletiriam o processo de normalização da política monetária nos EUA, iniciado com a primeira elevação da taxa de juros em dezembro do ano passado.

Independentemente dessas visões pessimistas de longo prazo, após o início de ano turbulento, a partir de meados de fevereiro houve uma ligeira melhora do panorama internacional – até mesmo como consequência das notícias negativas que haviam inicialmente deprimido os mercados. Assim, por exemplo, os dados mais fracos da atividade econômica nos Estados Unidos levaram a uma revisão da perspectiva de elevação dos juros naquele país: hoje, predomina a aposta de que a taxa de juros Federal Funds ficará estável nos próximos meses, ante uma sinalização de que poderia subir até um ponto percentual ao longo de 2016. Isso, por seu turno, parece ter aberto espaço para que o dólar se desvalorizasse e para algum retorno dos fluxos de capital para países emergentes, revertendo parcialmente a aversão ao risco que havia dominado os mercados na segunda metade de 2015 e primeiras semanas de 2016. No mesmo sentido, a recente decisão do Banco Central Europeu, no início de março, de cortar ainda mais suas taxas de juros (algumas, como comentado, já em terreno negativo); expandir o volume, o prazo e os ativos elegíveis de seu programa de aquisições de ativos; e de retomar o programa de refinanciamento de empréstimos bancários (LTROs) também tem contribuído para aumentar a confiança dos investidores e reduzir a aversão ao risco.

Esse comportamento um pouco mais positivo dos mercados financeiros parece também ter alcançado os mercados de commodities, cujos preços apresentaram alguma reação nas últimas semanas, embora existam dúvidas quanto à sustentabilidade desse movimento. Além da ligeira desvalorização do dólar no mercado internacional, parte da alta pode ser atribuída à expectativa de uma intensificação dos esforços da política econômica na China no sentido de evitar uma queda mais acentuada do crescimento, conforme propostas e metas apresentadas no Congresso do Povo, realizado em março.

Em resumo, apesar de uma ligeira melhora nas últimas semanas relativamente ao início de ano tenebroso nos mercados financeiros internacionais, ainda há considerável incerteza quanto ao comportamento da economia mundial tanto no curto quanto no longo prazo. Essa perspectiva é ainda mais crítica para os países emergentes, cujo desempenho tende a ser mais diretamente afetado pelos preços de commodities e pelos fluxos de capital.

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